segunda-feira, 9 de março de 2009

Da partida de quem sempre estará aqui

Como é que pode se explicar a dor que a morte causa?

Com a ausência vem o conformismo com o inevitável, pricipalmente quando quem parte já tinha na pele as marcas dos anos.
Meu jeito de sentir a dor de quem parte é, talvez, diferente da maneira da maioria das pessoas. Nessas horas choro pouco, não há espaço para o desespero é apenas um misto de lembranças misturadas aos fatos inevitáveis da evolução da vida e do tempo que não para.

Hoje, em uma tarde de chuva torrencial por estas bandas, me lembrei que com você aprendi a gostar da chuva, me lembrei do homem paulista, disfarçado de pantaneiro, que ao ver o céu preto dizia: um dia bonito. Pra quem não sabe, para quem vive no campo, bom mesmo é a chuva, que traz a vida para a terra, enche os rios de peixe e sacia a sede dos animais.


Lembrei das férias de julho dos tempos de infância. Pensei em todas as conversas sobre literatura, os livros recomendados, as histórias contadas, partilhadas.

Lembrei do hábito de meia xícara de açúcar para meia xícara de café(Igor, é de família). O inaplácavel gosto por doces(viu, de família também). O copo de água depois de qualquer refeição.

Lembrei dos ensinamentos de: como se livrar de uma sucuri no rio. Ou: como se livrar de uma onça pintada, "enfia o dedo nos olhos dela", é fato, qualquer animal quando ferido nos olhos foge, a tática também serve para bandidos na cidade. De como fazia os netos comerem bichos estranhos sem que soubessem o que era. Cobra, rã, jacaré (meu preferido).


Lembrei de como, quando eu já era adolescente, descobriu que eu gostava de ler, de escrever, que eu era, nas suas palavras, uma literata, do seu tom de orgulho ao falar isso para minha mãe.

Lembrei das histórias de saudade contadas ao final de um jantar, de muitos jantares.
Enquanto a chuva caía lembrava dos seus traços, tão parecidos com os meus, mais do que os do meu próprio pai.

Lembrei do: Oi boneca! Tá boa?!

Lembrei das férias de julho no pantanal quando eu era mais uma entre a dezena de netos.

Lembrei de: "a melhor coisa pra saúde é sexo".

Lembrei de: "a sua avó não casou virgem", e da minha mãe corando de vergonha, eu tinha uns 11 anos, achei o máximo, decidi que eu também não casaria virgem.


Lembrei de todas as histórias que ouvi de meu avô, de como ele me ensinou sobre respeito.

Lembrei das histórias sobre ele que ouvi da minha mãe, da minha bisa, das minhas tias. Os 'causos' engraçados contados pelos netos através das gerações.

Lembrei de como tentou, e somente tentou, me ensinar matemática. Lembrei que ele consertava parabólicas e computadores. Construía hidrelétricas, casas, móveis e nunca entrou em uma faculdade.


Foi personagem do fantástico duas vezes, matou a gente de vergonha e de rir. Ensinou os vovôs do país que o que mantém o ser humano são é o sexo, ganhou como fã o Dr. Dráuzio e o Sr. Kubrusly, além dos 11 filhos (que a gente sabe ;D), o batalhão de netos que eu já perdi a conta e os 8 bisnetos (me desculpem se esqueci algum), a última descendente nascida exatamente uma semana antes.

E é assim a vida, da qual a morte faz parte. "Vão-se os velhos e vêm os novos", como diria ele mesmo, Seu Mello. Oscar, meu avô.

Partiu no sábado, foi morar com as estrelas, reencontrar o grande amor da sua vida inteira. Fica a saudade e a certeza de que está em algum lugar, sentado com as pernas cruzadas, a mão no queixo e um meio sorriso no rosto, prestando atenção a conversa entabulada com alguém.
Pra quem não viu:
http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL696492-15605,00.html

23 comentários:

Jefferson Baicere disse...

Pois é Fer... post lindo e cheio de emoção
Também reajo parecido com você quando esta situação se mostra presente e nos faz "acordar" para a vida

Sim... agora o céu está mais feliz com as histórias desse moço ae!
=D

se cuida...
bjo

Ana Paula Sampaio disse...

Ahhh, Fernanda... Nem te conheço e te entendo tanto, tanto... beijos!

Moça do Fio disse...

Conseguiu me fazer chorar.

E fico pensando no quão eles são sábios, adoráveis.

Fique com a lembrança dos momentos que passaram juntos. E verá que ele estará pertinho de você.

Beijos e carinho.

Pedro Berocan disse...

Querida Fê,

Que saboroso é compartilhar a sabedoria dos avós. Estas lembranças são legados semeados para a dádiva vida. Momentos imortalizados em mortais.

E a vida segue, deixa seu sorriso em outras faces, deixa seu humor em outros fatos, deixa a sua vida para espelhar.

Um forte abraço

Pedro

Marcela disse...

Fernanda, as boas lembranças são o melhor de tudo, porque vão manter pra sempre a pessoa viva no seu pensamento, na sua alma.

Espero que nós tenhamos muitas histórias e muitas lembranças pra deixar para nossos netos.

Beijos e abraços.

Vanessa disse...

Avô deixa muita saudade, um desse então, nem se fala, né?

Deixo meu abraço

Babi Mello disse...

Que lindo Fé, sei o que não é mas ter avôs e me arrependo de não ter desbravados seus conhecimentos, porque assim saberia um pouco mais de mim.
Guarde-o dentro de seu coração.
Bj e força!

♥ღEdi♥ღ disse...

Linda homenagem pro Vô, com certeza ele viu vc escrever.
Ainda bem q os netos aprenderam que o sexo é o melhor caminho pra longevidade, o exemplo esteve sempre aí.
Edilene

Igor Garcia disse...

Agora eu sei de onde vem a paixão por doçes! Assim como seu Mello tomava meia xicara de açucar com meia de café, meu pai me ensinou a mesma coisa...com meia COLHER de açucar! ;-)

São as facetas de uma personalidade tão iluminada como a do seu Mello que vai ser relembrada por todas essas gerações, inclusive das que ele criou!

Meus pêsames e um carinho muito grande por ele e pelos seus sentimentos! E que nossos avós sejam sempre valorizados e lembrados até o dia que nos encontraremos novamente!

AMV!

Bjs saudosos!

Patricia disse...

que homenagem bonita. meu avô também é um grande exemplo de vida para mim e que bom que você pode compartilhar tantos momentos bons com ele e criar tanta memória boa! ele está em paz e com certeza olha por você (e deve ter gostado do que leu por aqui..).

beijo e força para a sua família.
:*

Danielle Kimura disse...

Menina forte você. Mas é isso, os anjos por onde passam, deixam luz. E que essa luz venha crescer cada vez mais, trasformando essa dor em belas lembranças. Lembrei de uma história que ouvi, de uma menina que pegou uma dor grandona e picou em pedacinhos. E por onde passava, ela deixava um pedacinho com alguém, até que não ficou com quase nenhum. É isso o que você fez, dividindo com a gente esses pedacinhos de luz. Fê, eu nunca sei o que dizer em horas como essas, porque eu sei que nada que eu diga vai fazer diminuir a sua dor. Se você tivesse aqui, eu te daria um abraço mudo. Beijos Nanda. Fica bem (:

*Renata disse...

Fer,

Através das suas palavras cheias de saudade senti meu coração apertado aqui do outro lado. Sei o quanto essas lembranças dói. Mas, sei também que você é forte e vai fazer dessas lembranças uma nova fonte de inspiração para a sua vida.

Gosto muito de você! Sinta-se abraçada, bem forte :)

Beijo grande,

*Renata disse...

Ah,

Eu tinha assistido sim a reportagem. Já era fã do seu avô e nem sabia :)

Paulo Bono disse...

Não tem jeito. morte é sempre uma merda.

abração

Denise do Egito disse...


Que bacana o orgulho que vc tem do seu vô. Dê valor a isso, guarde as lembranças no coração. Lamento a sua perda, viu? Eu nunca ouvi nenhum causo, não tive lições, não ri, nada, porque não conheci nenhum dos meus dois avôs. =( Mas gostaria...
Beijos e fique bem.

mano maya kosha disse...

mais alguém que não tem um vida imaginada, alguém que realmente escreveu uma história a ser contado, alguém que deixou uma pessoa, mais que influenciada, intrinsicamente preparada, sem lembranças do que poderia ter sido, apenas experiências para controlar o que ainda se pode ...

Helen Marie disse...

O que fica são as lembranças...ainda bem que são boas...
Abraços,
Helen

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

eu estou me acostumando a perder...

se vc vasculhar o calcinhas "os filhos da guerra" "de todos os abraços..." vai perceber que a morte é minha companheira indesejada.

aff

morrer é uma estupidez sem tamanho

Marcela disse...

Bah, deve ser duro trabalhar com dados desse tipo, ver em números o quanto isso acontece. Já é horrível ler jornais, assistir noticiários...

Espero que estejas bem.
Beijos.

Junkie careta disse...

Me estraçalhou baby...

Fui criado pelo meu avô. Ele é meu modelo de homem, meu norte, a ilha pra onde fujo quando a civilização me assusta. Perto dele ainda me sinto o mesmo garoto, me sinto seguro e protegido.Ele ainda não foi encontrar o amor de sua vida. Já andou me dando uns sustos antes do inevitável. Seu texto me fez lembrar que tenho que aproveitar enquanto ainda o tenho por perto. Quero compartilhar com vc o meu sincero pesar pela sua separação e te lembrar algo que aprendi com Odilo costa Filho, um poeta:
"a morte não separa o que a vida não pôde".

Ele certamente ficaria orgulhoso do comovente texto da neta.Parabéns.


Também voltei a escrever. Tô falando de pessoas intensas como vc no meu último post, e do preço que se paga por isso, e as consequências que essa intensidade tem nas nossas vidas e na de quem nos rodeia.Apareça quando tiver um tempinho.

Bjo

Helen Marie disse...

Fê,
Esqueci de perguntar: seu vô apareceu no Fantástico?
Abraços,
Helen

Solange Maia disse...

Fernanda,

Estou com olhos líquidos...

Sem nem conhecer já amo o S.Oscar...

Que lindo seu amor por ele, que forma madura e bela de encarar a morte...

Com certeza ele está brilhando lá em cima, iluminando ainda mais sua vida...
Salve, salve !!!!

Beijo muito carinhoso,

Solange

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

Jairo disse...

Com certeza, ele vibrou, onde quer que esteja, com essa belíssima homenagem.